Nunca fui um fala-barato. Do género de falar por tudo e por nada. Sempre fui poupadinho nas palavras, portanto. Falo sim, quando tenho algo para dizer. Conversas de elevador, tipo: “Então, parece que amanhã vai chover...” e outras que tais, sempre me provocaram alguma urticária, confesso. E depois há locais onde parece que é obrigatório estabelecer um diálogo. Já referi o elevador, onde é parece estranho que duas pessoas respirem o mesmo oxigénio sem trocar três ou quatro palavras de circunstância. Há também as lojas cujos empregados parecem ter sido os últimos vencedores do euromilhões e, guiados pela felicidade extrema que lhes bateu à porta, insistem em meter conversa sobre o tempo, as notícias ou - a minha preferida - o que estamos a comprar. Nem tenho palavras para descrever o quanto aprecio que chamem a atenção da loja inteira para o facto de eu estar a adquirir o último álbum da Mónica Sintra. Claro que a loja inteira nunca vai saber que aquele CD é para a minha tia-avó que vive em Mogadouro e, por um acaso, adora a menina que canta o “Afinal havia outra”, mas isso o funcionário sorridente e estupidamente conversador não quer saber...
Mas o templo da conversa de circunstância é, sem dúvida, o barbeiro (ou o cabeleireiro, consoante os casos). Aí torna-se praticamente inevitável comentar o golo do Cristiano Ronaldo ou as últimas travessuras da vilã da Floribella. Em alternativa, podemos sempre ser obrigados a tecer um comentário jocoso sobre a filha da dona da mercearia (que nem sequer conhecemos). Tudo em nome das regras da boa educação, claro. Se os outros falam comigo, é apenas de bom-tom que eu responda com, pelo menos, umas palavras de circunstância. E se opto por ficar calado, sem sequer esboçar um sorriso, o que acontece? Passo por mal educado, claro. E assim que colocar um pé fora do estabelecimento, serei eu (e não a filha da dona da mercearia) o alvo dos comentários trocistas.
Por estas e por outras é que eu, ao contrário de muitos, gosto de ir ao dentista. Só ele me compreende e nunca leva a mal o facto de me limitar a ficar ali de boca aberta e com ar de palerma a olhar para o tecto...