quinta-feira, setembro 14

Sem título (nem vergonha na cara)

8h57, IC17. Uma carrinha branca de dois lugares, já gasta dos muitos quilómetros percorridos e abatida pelo peso que carrega nas costas, segue (apesar de tudo) ligeira pela faixa da direita. Contrariando a sonolência própria da hora, de onde me encontro tenho uma vista privilegiada sobre a sua lateral esquerda. Não foi, portanto, difícil ver a janela do condutor abrir-se para aquilo que eu julgava ser um momento de profunda inspiração do ar fresco da manhã. Mas não. A inspiração era afinal transpiração. Transpiração de uma educação que terá faltado na altura em que ainda podia moldar o carácter daquele ser que seguia ao volante. Daquela janela semi-aberta voou, certamente assustado, um maço de tabaco, presumo que vazio. Voou para aterrar no chão e - mais tarde que mais cedo - juntar-se aos restantes objectos tornados descartáveis por outros condutores, fazedores daquele mesmo percurso e de semelhante grandeza moral. Pessoas a quem o impropério que mentalmente dirigi ao condutor da carrinha branca de dois lugares assentaria como uma luva. Porcos, filhos da mãe...
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