Pontapé no traseiro
Numa cínica manhã de inverno, onde o sol mascara o frio que se entranha por entre as fibras, espreguiço-me a caminho do trabalho. A estrada deserta lembra-me que sou dos poucos a arrastar-se até ao escritório, não tanto para picar o ponto, mas para produzir alguma coisa que se veja. É assim, com a disposição ao nível do mercúrio do termómetro, que me vejo a fazer o mesmo caminho de todos os dias. Vejo mas não sinto porque, raios, há um frio a morder-me os ossos. Em fundo, o rádio do carro balbucia qualquer coisa, notícias talvez. Ao fundo, o rio parece-me o mesmo de outros dias. Não o conhecesse eu de outras manhas (assim mesmo, sem til) e arriscava-me a dizer que está convidativo para um mergulho. À cautela, limito-me a seguir o meu caminho, deixando-me ir. A ausência de cafeína já está a fazer-se notar. Ainda assim, estou desperto o suficiente para reconhecer uma melodia muito familiar que agora ressoa nas colunas. Será a divina providência a mandar-me uma wake up call? A melodia identifica-se nas palavras de Tim. “Circo de feras” é, não só uma das melhores canções jamais cantadas em português, como é também o pontapé no traseiro que precisava para sair do fim-de-semana prolongado e aterrar da última semana do ano. Agora sim, estou desperto.

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