sexta-feira, março 24

A vingança serve-se fria. E numa meia-final.

Não era um dia como todos os outros para Olegário. Conhecidos lá no bairro por serem “uns sovinas que não saem de casa só para não gastar as solas dos sapatos”, os Benquerença haviam decidido gozar as suas primeiras férias em 23 anos. Tantos quantos Olegário, o seu primogénito, tinha de vida. Apesar da fama granjeada pelos pais e que, inevitavelmente, afectavam o seu dia-a-dia de pedreiro, Olegário achava-se um jovem como outro qualquer. À parte de uma particularidade que Olegário procurava - sem sucesso - manter como o seu segredo mais bem guardado: Olegário era virgem. Nada de mais, poderá dizer-se. Mas não para Olegário. Para ele, tal facto revestia-se de um dramatismo especial, alimentado pelo seu grupo de amigos que todas as noites se reunia na tasca do Loureiro para um café e três dedos de conversa. Três porque o último ia sempre parar ao mesmo: a castidade do Olegário. Que diabo, até o seu irmão, cinco anos mais novo se havia já iniciado nos prazeres da carne (neste caso muito literalmente já que a escolhida era nada mais nada menos que a filha da Antónia do talho)... Mais do que um desejo, a primeira experiência sexual tornou-se numa obsessão para Olegário. Mas agora ele tinha um plano. Aproveitando a ausência dos pais, o jovem Olegário havia convidado Esmeralda, que acumulava as funções de vizinha de cima com as de namorada há 6 longos (e castos) anos, para experimentar o novo VHS da família. Com sorte, por alturas do genérico, a acção já teria passado do ecrã para o sofá, onde Olegário preparava fazer a sua ofensiva final e, quiçá, vitoriosa.

Era Sábado, véspera dos Benquerença regressarem da Costa da Caparica, e a última oportunidade de acabar com o jejum – Olegário sabia-o. Por isso esmerou-se nos pormenores: colocou velas nas mesas e junto às janelas, retirou o sofá individual da sala para que ambos tivessem que sentar-se juntinhos no único sofá agora disponível e perfumou-se com uma fragrância especial, oferecida pela mãe no último Natal. Tudo estava pronto para receber a jovem Esmeralda e, se tudo corresse como esperado, a primeira de muitas aventuras sexuais. Tudo, à excepção de um pormenor que Olegário havia descurado: Esmeralda adorava futebol e era louca pelo Sporting. Erro crasso o de Olegário que, por detestar futebol, desconhecia também que o clube do coração da sua futura amante – esse mesmo onde ele deveria estar – tinha naquela noite uma partida que podia decidir o campeonato. E, para mal da sua virgindade de Olegário, o Sporting ganhou. E, para tristeza das hormonas de Olegário, sagrou-se campeão. Escusado será dizer que Esmeralda não mais se lembrou do VHS, do filme, nem mesmo do namorado-vizinho, preferindo acompanhar os milhares que festejavam nas ruas o feito da sua colectividade. Escusado será também dizer que Olegário, por força das circunstâncias, viu-se obrigado a recorrer a um banho bem gelado para conseguir refrear as agitadas hormonas. E foi já na cama que Olegário, agarrado ao seu ursinho de pelúcia Óscar, jurou para si mesmo que o Sporting havia de pagá-las. Nem que para isso tivesse de tornar-se árbitro de futebol...

2 Comments:

Blogger thecornflakes said...

Caro amigo,
Esse Olegário realmente tem problemas com a castidade... Há um tempo atrás, não deixou que os vermelhos desvirgindassem uma baliza imaculada na guarda do sr. Bictor, jovem empreendedor de um pequeno negócio de aves do aviário. Pois que senão 2 anos volvidos, tiveram de chamar um francês, conhecido violador pela Interpol, que desventrou a pobre baliza no meio da rua, guardada pelo tal Sr. Bictor, a sorte é que o Olegário tinha ido passear esse fim de semana, numa escursão de pastoreio com a malta do bairro.

10:44 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Excelente trabalho de psquisa que vai à génese de tudo aquilo que muitos procuram explicar mas que só tu conseguiste provar. Uma vez mais o sexo (ou a falta dele) na origem de traumas incuráveis e que visam apenas prejudicar terceiros. Q tropeçe num jogo do seu team predilecto e engula o apito. É o q eu lhe desejo.

5:06 p.m.  

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